Sábado, 25 de Setembro de 2010

A história de Rutélia VanDon

Perceber que quando se olha ao espelho não se vê apenas alguém, ou mesmo a si próprio, mas perceber, sim perceber, que a vida se resume àquela nítida imagem. Não há nada no princípio, nem mesmo nada no fim. Apenas aquela imagem, apenas aquele corpo, e a mente, sim a mente, limitada. Pensa-se que talvez, mesmo que não queiramos, e que sejamos ignorantes a esse ponto, que a vida cresce e faz crescer algo que se vê naquela imagem.

aaaa

Pousou a escova. O cabelo grisalho já fora penteado o suficiente. Parecia-lhe que não, mas sim, já estava penteado. Por mais que quisesse, e que lhe apetece-se, gritar não era a solução. Já tentara. E não resultara. Vingava-se agora nas sobrancelhas, direitas e simétricas, porém nada lhe parecia bem naquele espelho, nada seria real. Enganara-se a ela própria.

O sonho daquela vida pareceu distante. A verdadeira face da morte parecia tão próxima agora, cada vez mais próxima, e na altura de lhe poder dizer não, de lhe virar as costas e de lhe poder escapar por entre os dedos, dissera-lhe sim, nada de mais, nada de muito floreado, nada que tivesse nem amor nem ódio, apenas um “sim” que trocou pela alma e pelo sonho. Que trocara pela vida.

Na altura não o soube. Já escolhera o vestido. Rezara para que não fosse muito vitoriano, esperara agradar à sua ganância pessoal antes de conseguir agradar à futilidade dos outros. Infelizmente, já não se podia dar a esse luxo. Quando saiu do quarto, contentada por saber que mais um dia estava a acabar, mas ao mesmo tempo com medo do dia seguinte, a luz das velas do corredor bateram-lhe na face. As rugas eram muitas, e já lhe pesavam os anos que marcavam. No entanto, o que realmente a magoava era poder descrever um a um, todos os momentos que cada uma delas marcava naquela sua cara de velha. Desceu as escadas.

aaaa

O que não daria, em pensamentos e em sonhos falsos, por ter a vida de volta. O dilema que, cada vez maior, surge na sua alma, num vazio imenso que se traduz num olhar frio e vago e num sorriso, capaz de responder a qualquer pergunta.

Desceu as escadas. Passo a passo, retirou uma flor que pendia na jarra do hall de entrada, ajeitou o seu vestido e perguntou-se, Para quê?

2 comentários:

Flareo Dracus, as crónicas... disse...

Muito bom mesmo.

Nunca vi o filme, infelizmente.

No entanto, gosto imenso da mensagem aqui metaforizada: "Para quê?".
Faz imenso sentido, não? Acho que toda a gente que ler este post irá em algum ponto (se já não o fez) olhar para si, não necessariamente num espelho ou qualquer outro material reflexivo, mas "para si" de uma maneira que só cada um pode olhar para si próprio e pensar "Para quê?". Para quê as futilidades? Para quê as más energias? Para quê as preocupações?
Bom, «o mundo é um estranho equilíbrio de luz e escuridão» e mais não digo. :)

Carpe Diem...

Anónimo disse...

Texto muito bom. Só encontro um erro ;)